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É possível manejar a diabetes sem fazer dietas?

Ao falarmos de Mindful Eating como uma habilidade de se relacionar com a comida e o corpo com menos sofrimento e mais amorosidade e consciência, muitas pessoas pensam “Nossa que interessante”, mas isso só funciona para quem não tem nenhum “problema sério”. Para aquelas pessoas com diagnóstico de diabetes, hipertensão, obesidade ou compulsão alimentar, continuamos “cuidando” delas com a mesma rigidez das dietas e todas suas regras.


Quando alguém recebe o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2, profissionais como nutricionista (vale mencionar que eu também sou nutricionista) se veem obrigadas a dizer tudo o que essa pessoa precisa evitar e tomar cuidado. O medo é plano de fundo para as orientações: “Se você não seguir isso a sua saúde estará em jogo com as complicações clínicas que podem surgir da diabetes”. Aqui adiciono os profissionais da área da saúde em geral, e não no sentido de culpabilizar alguém e sim de abrir espaço para uma conversa franca e amorosa sobre o assunto.  


 Basicamente o olhar da nutrição tradicional prescreve uma dieta com a limitação de consumo de açúcares/carboidratos e quanto maior o medo maior é a restrição, chegando até a recomendação de dietas low-carb (dieta com redução grande de carboidratos). Além disso, recomenda-se atividade física regular.


A seguir faço duas perguntas que você pode responder como profissional da área da saúde, como alguém que possua diagnóstico de diabetes ou conheça alguém que tenha:

  • Na prática como as pessoas reagem a essas recomendações?

  • Você nota que a longo prazo essas recomendações trazem saúde de verdade? (Você pode compartilhar comigo nos comentários aqui do blog)

Quando eu cursava nutrição, falava-se sobre a hemoglobina glicada, que reflete os níveis de glicose no sangue dos últimos três meses, até hoje é utilizada como forma de descobrir se o paciente está mentindo sobre o comportamento alimentar, já que a glicemia poderia ser mais facilmente manejada. Faço uma pausa aqui e reflito em que momento o cuidado da nutrição vem desse lugar de descobrir se o outro está mentindo e que tipo relação profissional e cliente surge desse olhar. Assim, ainda hoje, os exames de sangue são utilizados como ferramentas de culpa e vergonha para às pessoas com diabetes (observação: não só para quem tem diabetes).

Vou dizer uma coisa que talvez seja nova para você:

É POSSÍVEL CUIDAR DE VERDADE DE INDIVÍDUOS COM DIABETES MELLITUS TIPO 2 SEM ABORDAGEM PRESCRITIVA.

               A seguir apresento para você COMO:

  • ACOLHIMENTO DO DIAGNÓSTICO

O primeiro passo é a profissional da área da saúde explicar o que é diabetes mellitus tipo 2 em uma linguagem que outro compreenda. Junto a isso, abordar alguns mitos como: “você tem diabetes porque você comeu muito doce na vida” ou “você nunca mais vai poder comer doce”. Discursos de medo e vergonha não ajudam que as pessoas cuidem de si. Além disso, a etiologia das doenças crônicas não transmissíveis, como é o caso da diabetes, são multifatoriais e ligadas a fatores que estamos no comando e outros que não dependem de nós.

Gosto de pensar: “Como eu gostaria que alguém me tratasse quando eu acabo de receber um diagnóstico?” e a resposta que surge é com carinho. Outro ponto essencial é que enquanto profissionais possamos normalizar sentimentos como raiva, medo, culpa e negação após o diagnóstico. É interessante checar se essa pessoa possui algum apoio para cuidar dessas emoções.

  • COMO TEMOS MANEJADO A DIABETES NOS DIAS DE HOJE?

O que a ciência nos mostra é que a mudança do estilo de vida é a melhor estratégia para prevenir as complicações de diabetes.

E como as pessoas hoje acreditam que vão mudar o estilo de vida? FAZENDO DIETAS.

A partir desse momento o sofrimento aumenta ainda mais. Alguns dados cruciais:

  • 95-98% das dietas não funcionam

  • 1/3 das pessoas ganham mais peso do que perderam

  • Dietas promovem o efeito sanfona que faz com que as pessoas vivam menos

  • Fazer dietas faz com que as pessoas restringiram certos alimentos e depois comam demais esses alimentos

  • Episódios de restrição e compulsão impactam negativamente no manejo da glicemia

  • Fazer exercício com objetivo de emagrecer não ajuda com que as pessoas engajem na prática ao longo prazo

COMO PODEMOS VER FAZER DIETAS LEVA A UMA MUDANÇA DE ESTILO DE VIDA, NO ENTANTO, NA DIREÇÃO OPOSTA DO DESEJADO, AGRAVANDO AINDA MAIS A SAÚDE.
  • COMO A SABEDORIA DO CORPO PODE AJUDAR NO MANEJO DE DIABETES?

NOSSO CORPO É DIGNO DE CONFIANÇA e não é porque alguém tem o diagnóstico de diabetes que isso mudou.

Como Mindful Eating pode ser útil:

  • Ao auxiliar as pessoas a acessarem os sinais do corpo de fome e os sinais de quando já tiveram o suficiente. Quem sabe a profissional pode explicar o porquê alguns pacientes têm aumento de fome quando ficam intolerantes à glicose [acompanhe os próximos textos que vou falar mais sobre isso]. Ainda, é comum que os pacientes confundam sinais de fome com os sinais de hiperglicemia e a investigação das sensações do corpo pode ajudá-lo a diferenciar.

  • Ao ensinar como trabalhar com os pensamentos que distanciam as pessoas de movimentar o corpo de forma prazerosa

  • Ao auxiliar com que as pessoas reconheçam a fome emocional e aprendem novas formas de cuidar das emoções sem utilizar a comida

  • Ao auxiliar com que as pessoas investiguem qual é o impacto dos alimentos e das combinações de alimentos no corpo: “Quando eu me sinto mais tempo nutrida?” “O que eu COMO que me faz sentir bem-estar? E mal-estar”?

  • COMBINAR A SABEDORIA INTERNA COM A INFORMAÇÕES NUTRICIONAIS

Mais conectada e confiante no corpo, a pessoa pode aprender a utilizar as informações nutricionais como ferramenta e não como arma:

  • O Guia Alimentar da População Brasileira pode ser uma ótima maneira de mostrar como planejar uma refeição, quais formas podem trazer mais nutrientes e menos impacto na glicemia.

  • O conhecimento sobre índice glicêmico ajuda com que a paciente tenha uma ideia do melhor manejo da glicemia

  • O monitoramento da glicemia ao longo do dia, especialmente após duas horas das refeições, é uma informação valiosa quando despida de culpa e banhada de curiosidade. Aos poucos, a pessoa começa a descobrir como os alimentos e as combinações dos mesmos a fazem se sentir bem. Essa sabedoria não surge apenas do intelecto, mas da experiência.

Esse texto surge da vontade de realmente cuidar das pessoas que sofrem com a comida e estão manejando doenças crônicas não transmissíveis na vida diária.


Como seu eu pudesse dizer “Eu vejo vocês” “Eu reconheço o seu sofrimento” “O seu valor não está no número da balança e nem no resultado da sua glicemia”.


Finalizo o primeiro texto com a tradução de 10 estratégias para começar do lugar certo do livro Eat what you Love, Love what you eat with diabetes, escrito por Michelle May e Megrette Fletcher.

  1. Deixar ir as crenças de que você é incapaz de manejar a sua alimentação e diabetes sem as regras rígidas

  2. Encontrar modelos, profissionais da área da saúde e suporte que compreenda Mindful Eating (sugestão checar a lista de indicação do Centro Brasileiro de Mindful Eating https://www.centrobrasileiromindfuleating.com/agenda)

  3. Filtrar o que você lê, ouve e diz perguntando: Isso tem natureza restritiva? Você pode ficar surpresa como as mensagens restritivas são sedutoras

  4. Ficar mais consciente dos pensamentos. Pode ajudar a ter um caderno para captar as crenças e substituir por mensagens mais gentis e pensamento mais flexíveis

  5. Todos os alimentos cabem quando você encontra o equilíbrio e ouve seu corpo

  6. Deixar ir as palavras como “pode” e “não pode” para alimentos

  7. Utilizar as informações nutricionais como uma ferramenta e não como uma arma

  8. Deixar a crença de que você precisa comer perfeito

  9. Aceite que em alguns momentos você vai se arrepender de algumas escolhas alimentares, isso faz parte de um estilo de vida saudável. Quando você não está mergulhada em culpa e vergonha, você pode aprender das experiências

  10. Repita isso com frequência: “Eu estou no caminho longo, Eu posso aprender a confiar e nutrir o corpo sem restrição alimentar”.

Em breve mais sobre Mindful Eating e Diabetes.

Escrito por Driele Quinhoneiro e repostado do blog http://drielequinhoneiro.com/blog/ Nutricionista não dieta, professora de Mindful Eating e Diretora do Centro Brasileiro de Mindful Eating. @nutricionistadrielequinho





Links:

  • Guia Alimentar para a População Brasileira: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

  • Livro Eat what you Love, Love what you eat with diabetes : https://www.amazon.com.br/Eat-What-You-Love-Diabetes-ebook/dp/B07C55FCK7/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&dchild=1&keywords=michelle+may&qid=1601489203&sr=8-1

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Centro Brasileiro de Mindful Eating

Mindful Eating Brasil

Um resgate a consciência ao comer e ao amor pela comida