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Relato da experiência de fazer ciência com Mindful Eating

Trabalho com pesquisa desde a época da graduação, quando fui aluna de iniciação científica do laboratório de bioquímica da minha universidade. Sempre gostei de estudar, de buscar respostas, fazer perguntas e descobrir o novo. A nutrição é discutida em tantos meios diferentes que talvez por isso seja tão cheia de “certos e errados” ou “mitos e verdades”... Certamente isto instigou a minha necessidade por busca de evidências.


Saí da graduação direto para o mestrado. Não atuei em consultório ou clínica por muito tempo. As prescrições, dietas e cardápios não faziam sentido para mim. Falar para o paciente que deve comer 2 colheres de sopa de arroz integral e meia concha de feijão... onde está a evidência disso? Como prescrever algo que eu não me sinto segura? Terminei o mestrado, emendei o doutorado e mesmo após o doutorado, continuo estudando. Hoje sou pesquisadora de um hospital em São Paulo. Meu objetivo é entender o que realmente ajuda um paciente cardiopata, um paciente diabético, hipertenso... Quais são as evidências científicas e qual a qualidade dessas evidências. Quem e como discutem a nutrição/alimentação.


Há aproximadamente 3 anos fui apresentada ao Mindfulness durante uma sessão com minha psicóloga. Achei super interessante, e, adivinhem, fui pesquisar! Me apaixonei. Continuei a busca e me deparei com o mindful eating. Esta foi uma experiência diferente. Não foi uma pesquisa acadêmica, científica, com os rigores e metodologias de costume. Foi uma experiência pessoal. Uma pesquisa diferente, com prática, de sentir, viver e entender no processo que o que você está fazendo, faz sentido. E então, a partir da minha vivência, fui para os livros, para a literatura e comecei não só a estudar, mas fazer pesquisa e contribuir com evidências sobre essa técnica. Um processo de pesquisa totalmente diferente da busca pelo: “será que duas colheres de aveia ao dia reduzem o colesterol?”. Sim, toda a abordagem com mindfulness é diferente, até quando a gente faz pesquisa, a intencionalidade é diferente da “tradicional”.


Pois então, mindful eating é novo, novíssimo!!! Se procurarmos no PubMed (principal biblioteca com diversas bases científicas na área da saúde), a primeira publicação de mindfulness é de 1979 e estourou mesmo em 2010, quando desde então a publicação média aproximada é de 200 publicações ao ano. O descritor Mindful Eating foi primeiramente publicado em 2003 e somente em 2013, temos, uma publicação média aproximada de 10 trabalhos ao ano. Poucos trabalhos que discutem os protocolos de mindful eating.


Por que isso é importante? Por que fazer pesquisa nesta área é importante?

Uma coisa é a intervenção fazer sentido para o paciente e para o profissional que está prescrevendo/orientando. A gente sente na pele, a gente acredita, a gente vive e orienta. Outra coisa é a intervenção ser efetiva sobre um desfecho de saúde específico a ponto de ser discutida como política pública. No caso do Brasil, temos a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) que foi oficializada em 2006. Mindfulness pode estar inserido entre as PICs, como prática de meditação. Mindful Eating também poderia estar inserido da mesma forma. Entretanto, não há menção específica a elas, e é para fomentar com evidências robustas que precisamos estudar e publicar mais na área.


Pesquisar sobre Mindful Eating não é fácil. Compartilho aqui com vocês algumas dificuldades que tenho:

  • O que você está procurando na literatura, evidências sobre o protocolo de mindfulness ou mindful eating?

Gente, é uma miscelânia. Não feche sua busca para apenas estudos com protocolo de mindful eating. Dependendo do seu objetivo, publicações ainda da década de 80 ou 90 com mindfulness já estavam discutindo o efeito sobre ansiedade e alguns com discussão sobre forma de se alimentar. Então, tenha muito claro o que você quer pesquisar.

  • O que você está procurando na literatura, protocolos validados, práticas formais, práticas informais?

Sim, este é um detalhe muito importante que quem estuda Mindfulness deve se atentar ao ler uma publicação. Também, raramente é apresentado nos artigos a formação e tempo de atuação dos profissionais que moderam os grupos. Detalhes, só se você conseguir o acesso à tese ou o contato do autor. Infelizmente, por limite de palavras, as publicações são bem pobres em detalhes que fazem toda diferença para discutir os resultados.


  • O que você quer saber, o efeito de uma determinada prática/protocolo versus “nada” ou versus alguma outra intervenção? Como está planejando sua pesquisa?

Aqui é bem complicado também. Por exemplo, um estudo em pacientes diabéticos, você não pode simplesmente dar para um grupo a intervenção com práticas de mindfulness e para o outro grupo “nada”. Isto é uma questão ética. Ou seja, você deve pensar bem sobre quem será o comparador. Outro ponto é: você quer saber se a intervenção com práticas de mindfulness é melhor ou pior que o que? Sim, na pesquisa temos sempre um comparador. Pode ser “antes x depois”, pode comprar com alguma outra técnica de meditação... Isto é, o objetivo, o comparador e o tipo do estudo, vão influenciar o resultado e sua interpretação.


  • Qual o desfecho de saúde que você procura?

Não, não é só o paciente que procura por métodos para reduzir peso, mas também a literatura científica se pauta totalmente nisso. Milhares e milhares de publicações querendo comprovar que a sua intervenção/ideia/produto atingiu a tão famosa meta da redução dos 5-10% do peso.

Mas qual é o desfecho de saúde que buscamos com a prática de mindfulness ou mindful eating? Qual a intenção com as práticas? Talvez um questionário de qualidade de vida ou de qualidade da alimentação possam traduzir melhor aquilo que buscamos com estas intervenções? Ainda, vejo que o desenho de estudo quantitativo talvez não seja o melhor para abordar o tema, quem conhece o desenho qualitativo?


Aqui, temos espaço para pensar, refletir e discutir sobre duas coisas: a) Qual o melhor desfecho para estes estudos? b) Como trazer para a comunidade científica este outro olhar sobre o cuidado com a saúde, que pode ser medido não com o peso, mas de outra forma?


Um trabalho de formiguinha. Estamos só começando. Incentivo colegas a refletirem e se interessarem sobre pesquisa, sobre como fazer ciência com mindfulness/mindful eating.


Ângela Cristine Bersch Ferreira

Nutricionista e Pesquisadora no IP - hcor.

@nutriangelabersch

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